O Mundo em 2026


Circo Fedorento Global.


Se isto fosse um episódio do “Gato Fedorento”, dir-se-ia: «Ó gente, bem-vindos ao maior circo sem palhaços da História, onde o Homo Sapiens — essa relíquia antropológica que ainda se julga o centro do Universo — monta a tenda diária e finge saber para onde vai. Sociologicamente, vivemos an era do “homo scrollicus”: biliões de criaturas presas a ecrãs, trocando emojis por afectos, enquanto algoritmos decidem quem ama, odeia ou consome o próximo artefacto inútil. As tribos digitais fragmentaram-se em bolhas, como aquários de peixinhos beta que se devoram mutuamente — só que com *likes* em vez de barbatanas.

Politicamente, Trump regressa ao pedestal como gladiador de gravata, prometendo tarifas como vergastadas ao Canadá e a Gronelândia como prémio, enquanto a Europa estremece entre nevões e soberanismos renascentes. Putin e Zelensky dançam o tango ucraniano em Abu Dhabi, com mísseis como convites e territórios como damas no xadrez eterno — ninguém avança, mas todos sangram. Em Gaza, reféns viram pó e a paz é uma resolução gasta da ONU, que ninguém lê.

Culturalmente, o TikTok engoliu Shakespeare: vídeos de quinze segundos substituem sonetos, a IA vomita *bestsellers* e a cultura pop mastiga o sublime, cuspindo *memes* sobre o fim climático. Antropologicamente, rimo-nos: regressámos às cavernas virtuais, pintando mamutes em *pixels*, enquanto o planeta se afoga em Gorettis e Ingrids — e os senhores de Davos debatem ecologia entre jactos e caviar.

Tecnicamente, somos deuses coxos: as IAs filosofam melhor que Sócrates, mas sem veneno na taça; os *Neuralinks* vendem imortalidade em implantes e pílulas, e a consciência — essa fugitiva eterna — vira dados para comercializar. Elon coloniza Marte para fugir ao terráqueo, a China constrói máquinas que censuram até os sonhos.

Religiosamente, o Vaticano coça a cabeça com mulheres-sacerdotes, evangélicos trumpistas rezam por muros eléctricos, e o budismo *light* floresce em *apps* — deuses de bolso para uma fé de micro-ondas, onde o algoritmo é o Papa definitivo.

Filosoficamente, Nietzsche partir-se-ia às gargalhadas: Deus morreu há séculos, o super-homem virou *influencer* de ginásio, o eterno retorno é o *scroll* infinito, e o niilismo chega embrulhado em notificações *push*. McGilchrist avisa: o cérebro esquerdo devorou o direito, deixando-nos espertos como ratos, mas cegos ao sagrado.

Eis o retrato: um mundo febril, entre nevão e negociata, *like* e luto. Riam desta palhaçada — ou chorem, mas não digam que não avisamos. Há mar e mar; entre sem medo de voltar, que o circo não fecha… nunca fecha.


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