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  Quando o mundo aparece – ou como Michael Pollan nos leva ao lugar onde a consciência se torna ainda mais estranha “A World Appears: A Journey into Consciousness” de Michael Pollan (Penguin Random House) Há livros que se limitam a explicar. E há livros que nos mudam o olhar sobre o que somos. A World Appears: A Journey into Consciousness , o novo livro de Michael Pollan, publicado em fevereiro de 2026, pertence claramente a esta segunda categoria. Não é um tratado árido de neurociência nem um manifesto místico. É uma viagem – longa, honesta, por vezes desconcertante – pelos territórios mais escorregadios da mente humana. E, como acontece sempre com Pollan, o autor não se limita a contar o que descobriu: leva-nos pela mão e mostra-nos o caminho que ele próprio percorreu, com todas as curvas inesperadas. Se ainda não conhecem o nome, Michael Pollan é aquele escritor americano que nos ensinou a olhar para a comida com outros olhos ( The Omnivore’s Dilemma ), que nos fez repensar os ...
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  Honora, ou o dia em que o Flea parou de saltar Há discos que chegam como um soco no estômago e outros que chegam como um suspiro longo, daqueles que se solta quando se percebe que afinal não era preciso correr tanto. Honora , o primeiro álbum a solo verdadeiro de Flea, é dos segundos. Saiu a 27 de março de 2026 pela Nonesuch e, aos 63 anos (ou lá perto), o homem que durante décadas foi o baixo elétrico mais hiperactivo do planeta decidiu, finalmente, sentar-se. Não é metáfora. Ele sentou-se mesmo. Deixou de saltar como um miúdo drogado de adrenalina nos palcos dos Red Hot Chili Peppers e pegou no trompete — o instrumento que amava em criança, quando sonhava ser Dizzy Gillespie e ouvia Miles Davis e Thelonious Monk em casa do padrasto. Praticou todos os dias, em digressão, em hotéis, entre um concerto e outro, enquanto o mundo continuava a pedir-lhe funk suado e camisas sem mangas. E um dia disse: chega. Vou fazer o disco que sempre quis. O resultado chama-se Honora . O nome vem d...
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  Dois rostos da mesma manhã Ontem de manhã, em Coimbra, uma máquina aprendeu a chorar com uma guitarra. Hoje de manhã, na mesma página do jornal, outra máquina aprendeu a matar sem remorso. Não é metáfora. É calendário. De um lado, investigadores da Universidade de Coimbra, com nomes que parecem saídos de uma lista de bolseiros sérios, ensinam a uma inteligência artificial a distinguir a melancolia outonal de Nick Drake da embriaguez quente de John Martyn. A máquina escuta, analisa harmonias, ritmos, timbres, palavras, silêncios, e devolve-nos uma playlist que sabe, melhor do que muitos amigos, quando precisamos de consolo ou de um pontapé no orgulho. É quase poético. Quase humano. Quase redentor. Do outro lado, na capa da Visão , o mesmo tipo de inteligência aparece vestido de titânio e camouflage: robôs de combate, drones armados, algoritmos que decidem em milissegundos quem vive e quem morre no Irão ou em qualquer outro teatro de operações onde os humanos já não querem sujar as...
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  Avanço de Hora   Avançamos o relógio,   como quem, num gesto de prestidigitador cansado,   empurra o ponteiro para a frente   e declara vitória sobre o tempo —   esse velho credor que nunca perdoa dívidas.   Ganhei uma hora, dizemos,  com a soberba dos que acreditam   poder negociar com a eternidade.   Uma hora de luz a mais,  uma hora de crepúsculo adiado,   como se o escuro fosse um inquilino   a quem se pode atrasar o despejo   com um simples gesto do pulso.   Mas o tempo, ó meu caro,  não é relógio nem ponteiro;  é o próprio rio de Heraclito,   que não se deixa medir por mecanismos suíços   nem por convenções de Bruxelas.   Avançamos o mostrador  e fingimos que enganámos Cronos,   quando apenas adiamos o encontro   com a sombra que já nos espera   no fim do corredor.   Quantas vezes, ...
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  Páscoa, a grande mixórdia Ora aqui estamos nós outra vez, meus senhores, a celebrar a Páscoa com a seriedade de quem não sabe bem o que celebra. Uns comem cabrito, outros chocolate, outros ainda nem sabem se é religião, se é tradição, se é só uma desculpa para fechar a loja e ir para a praia. Mas vamos por partes, com a honestidade que o caso merece. Primeiro, a origem judaica — o Pessach. Segundo o Livro do Êxodo, o bom Deus, todo-poderoso e infinitamente misericordioso, decidiu libertar o seu povo escolhido passando por cima das casas dos hebreus (devidamente marcadas com sangue de cordeiro) e matando, de uma só vez, todos os primogénitos do Egipto. Sim, senhor, está escrito: Livro do Êxodo , no Antigo Testamento (Pentateuco), e é conhecida como a décima praga do Egipto — a morte dos primogénitos. Referência exacta: Êxodo 12:1-30 (principalmente os versículos 12:12-13 e 12:29-30). Deus, na sua infinita bondade, resolveu tratar do problema da escravidão com um infanticídio em...
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  Pink Moon Durante a vida, Nick Drake foi praticamente ignorado. Só depois da sua morte, especialmente a partir dos anos 80 e 90, a sua música começou a ser descoberta por novas gerações. Artistas como Robert Smith (The Cure), Peter Buck (R.E.M.), Brad Pitt, Wes Anderson e muitos outros falaram publicamente do impacto que ele teve neles. Hoje é considerado um dos maiores e mais influentes cantores-compositores da história do folk e do rock alternativo. Pink Moon é frequentemente citado como um dos álbuns mais bonitos e tristes alguma vez gravados. Há algo de profundamente comovente na vida de Nick Drake: ele criou música de uma beleza quase insuportável, mas não conseguiu encontrar um lugar para si neste mundo. A sua obra é, em grande medida, o registo de alguém que se sentia estrangeiro na própria vida.
Vaidade das Vaidades (edição sem anestesia)   Vivemos todos de cara lavada,   com o sorriso plastificado para a objectiva,   dizendo “amo a vida”   enquanto vendemos a alma aos bocadinhos   por um punhado de likes de desconhecidos.   Somos tão autênticos   que até a mentira vem com filtro Valencia,   tão profundos   que cabemos num quadrado de três por três,   tão generosos   que só damos o que fica bem na fotografia   e ainda pedimos palmas por isso.   Cada um com o seu pequeno altar portátil,   o telemóvel na mão como um crucifixo de plástico,   oferecendo ao deus invisível  o sacrifício diário da própria vergonha:   o corpo retocado, o filho encenado,   o jantar que nunca comemos,  o avô que tem de vir de claro   para não estragar a paleta da felicidade alheia.   E competimos, meus senhores, competimos fero...