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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026
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O Meu Hanko Chamo-me Melo e, se me perguntarem qual é o objecto que mais me define sem que eu precise de dizer uma única palavra, mostro-lhes este pequeno bloco de pedra. Há anos que o tenho – não sei quantos ao certo, o tempo desses pormenores dissolve-se como tinta na água – mas basta pegar nele para que tudo volte: o peso exacto na palma da mão, o frio suave que aquece devagar com o contacto da pele, o degradê de coral rosado que vai do branco-leitoso ao cobre avermelhado, como se a própria pedra tivesse decidido imitar um pôr-do-sol sobre o Mondego. É rectangular, sólido mas elegante, com arestas que já não são perfeitas porque o uso as poliu, e isso, confesso, agrada-me. Imperfeição que se torna correcta, como no kintsugi que tanto me toca: as fissuras não seescondem, iluminam-se. De um lado, gravado com a delicadeza de um sumi-e feito por mãos que sabiam exactamente onde parar, ergue-se um bambu. Folhas finas, hastes que se dobram mas nunca quebram – o símbolo perfeito de quem, c...
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  金継 ぎ Kintsugi, ou A Arte de Ser Mais Bonito Depois de Partido Há coisas que só descobrimos quando já estamos suficientemente quebrados para as compreender. Foi o que me aconteceu com o kintsugi, uma palavra que, até há pouco tempo, me parecia apenas mais um exótico adorno oriental, daqueles que se penduram na parede para impressionar os convidados. O kintsugi não repara. O kintsugi revela. Pega numa tigela que se partiu em sete pedaços, mistura laca com ouro em pó e junta os cacos com uma paciência quase cruel. O resultado não é uma tigela “como nova”. É uma tigela que nunca mais será nova — e é precisamente isso que a torna mais valiosa. As linhas de ouro não escondem o acidente: celebram-no. Cada fractura torna-se um rio de luz. A peça que antes era anónima ganha biografia. Passa a contar uma história que ninguém mais tem. Penso nisto e sorrio com aquela ironia inglesa que Barnes tanto cultivava: nós, ocidentais, passamos a vida a tentar disfarçar as rachas. Colamos com super-c...
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  Dois Murros no Estômago do Homem Passeava eu esta manhã com o Miró, o cão mais filósofo da freguesia, quando me lembrei que hoje, exactamente hoje, 22 de Fevereiro, a ciência deu dois murros no estômago do homem — um em 1632, outro em 1997 — e que ambos ainda doem, caramba, ainda doem. Em 1632, Galileu Galilei, um velhote teimoso de Pisa, publicou o Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo . O livro era um soco bem dado: a Terra, que sempre se julgara o centro de tudo, deixava de o ser. Girava. Girava à volta do Sol como uma criada à volta da patroa. A Igreja, que tinha o monopólio do céu, sentiu o murro em pleno plexo solar. Foi o princípio do fim da certeza. O homem deixou de ser o filho dilecto de Deus e passou a ser um pontinho azul a rodopiar no vazio. Galileu pagou caro: abjuração, prisão domiciliária, humilhação pública. Mas o murro ficou. E ainda hoje, quando olhamos para o céu, sentimos o eco daquele soco: «Tu não és o centro, meu filho. Nunca foste.» Três sécu...
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  Teia com Orvalho Passeava eu com o Miró, o cão mais filósofo da freguesia, pela manhã ainda fresca de quem acordou agora, quando dei de caras com aquele luxo absurdo pendurado entre dois ramos como se nada fosse. Uma teia de aranha, caramba, mas que teia! Toda besuntada de orvalho, milhares de diamantes miúdos, feitos de cuspo e geometria divina, brilhando que nem o lustre da tia velha que ninguém liga mas que, de repente, ilumina a sala inteira. Fiquei ali especado, parvo, com o Miró a puxar pela trela e eu sem vontade nenhuma de andar. Porque há coisas que valem mais que o exercício matinal, valem mais que o bom senso de um homem de certa idade, valem mais que o tempo que nos resta. Ó aranha, ó artista anónima e feia, tu que teceste no escuro esta catedral de fio, não sabes, mas hoje deste-me uma lição de graça: o mais belo que há no mundo é quase sempre obra de quem ninguém vê, e aparece só quando a luz decide pousar-lhe em cima e dizer: «Olha, olha ...
  The Quiet Rebellion of Staying In I sit at the small wooden table by the window, the one that catches the late afternoon light just so, and I realise I have not posted a single photograph in months. Not one. The account—once alive with daily images, each one a little offering to the invisible crowd—now feels like an abandoned house. I open it sometimes, scroll through the old posts as one might walk through rooms long left empty, and feel nothing. No nostalgia, no regret, only a faint curiosity at the stranger who once thought those squares of light and shadow mattered so much. It is not that I have stopped seeing. The dog still stretches in that particular arc of contentment on the rug. My wife still moves through the kitchen with the quiet grace of someone who knows the space by heart. The books wait on the shelf like patient old friends. The poems still come, scratched out in the margins of notebooks, half-formed and stubborn. Everything is still here, more present than ever. ...