Dois rostos da mesma manhã Ontem de manhã, em Coimbra, uma máquina aprendeu a chorar com uma guitarra. Hoje de manhã, na mesma página do jornal, outra máquina aprendeu a matar sem remorso. Não é metáfora. É calendário. De um lado, investigadores da Universidade de Coimbra, com nomes que parecem saídos de uma lista de bolseiros sérios, ensinam a uma inteligência artificial a distinguir a melancolia outonal de Nick Drake da embriaguez quente de John Martyn. A máquina escuta, analisa harmonias, ritmos, timbres, palavras, silêncios, e devolve-nos uma playlist que sabe, melhor do que muitos amigos, quando precisamos de consolo ou de um pontapé no orgulho. É quase poético. Quase humano. Quase redentor. Do outro lado, na capa da Visão , o mesmo tipo de inteligência aparece vestido de titânio e camouflage: robôs de combate, drones armados, algoritmos que decidem em milissegundos quem vive e quem morre no Irão ou em qualquer outro teatro de operações onde os humanos já não querem sujar as...
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A mostrar mensagens de março, 2026
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Avanço de Hora Avançamos o relógio, como quem, num gesto de prestidigitador cansado, empurra o ponteiro para a frente e declara vitória sobre o tempo — esse velho credor que nunca perdoa dívidas. Ganhei uma hora, dizemos, com a soberba dos que acreditam poder negociar com a eternidade. Uma hora de luz a mais, uma hora de crepúsculo adiado, como se o escuro fosse um inquilino a quem se pode atrasar o despejo com um simples gesto do pulso. Mas o tempo, ó meu caro, não é relógio nem ponteiro; é o próprio rio de Heraclito, que não se deixa medir por mecanismos suíços nem por convenções de Bruxelas. Avançamos o mostrador e fingimos que enganámos Cronos, quando apenas adiamos o encontro com a sombra que já nos espera no fim do corredor. Quantas vezes, ...
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Páscoa, a grande mixórdia Ora aqui estamos nós outra vez, meus senhores, a celebrar a Páscoa com a seriedade de quem não sabe bem o que celebra. Uns comem cabrito, outros chocolate, outros ainda nem sabem se é religião, se é tradição, se é só uma desculpa para fechar a loja e ir para a praia. Mas vamos por partes, com a honestidade que o caso merece. Primeiro, a origem judaica — o Pessach. Segundo o Livro do Êxodo, o bom Deus, todo-poderoso e infinitamente misericordioso, decidiu libertar o seu povo escolhido passando por cima das casas dos hebreus (devidamente marcadas com sangue de cordeiro) e matando, de uma só vez, todos os primogénitos do Egipto. Sim, senhor, está escrito: Livro do Êxodo , no Antigo Testamento (Pentateuco), e é conhecida como a décima praga do Egipto — a morte dos primogénitos. Referência exacta: Êxodo 12:1-30 (principalmente os versículos 12:12-13 e 12:29-30). Deus, na sua infinita bondade, resolveu tratar do problema da escravidão com um infanticídio em...
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Pink Moon Durante a vida, Nick Drake foi praticamente ignorado. Só depois da sua morte, especialmente a partir dos anos 80 e 90, a sua música começou a ser descoberta por novas gerações. Artistas como Robert Smith (The Cure), Peter Buck (R.E.M.), Brad Pitt, Wes Anderson e muitos outros falaram publicamente do impacto que ele teve neles. Hoje é considerado um dos maiores e mais influentes cantores-compositores da história do folk e do rock alternativo. Pink Moon é frequentemente citado como um dos álbuns mais bonitos e tristes alguma vez gravados. Há algo de profundamente comovente na vida de Nick Drake: ele criou música de uma beleza quase insuportável, mas não conseguiu encontrar um lugar para si neste mundo. A sua obra é, em grande medida, o registo de alguém que se sentia estrangeiro na própria vida.
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Vaidade das Vaidades (edição sem anestesia) Vivemos todos de cara lavada, com o sorriso plastificado para a objectiva, dizendo “amo a vida” enquanto vendemos a alma aos bocadinhos por um punhado de likes de desconhecidos. Somos tão autênticos que até a mentira vem com filtro Valencia, tão profundos que cabemos num quadrado de três por três, tão generosos que só damos o que fica bem na fotografia e ainda pedimos palmas por isso. Cada um com o seu pequeno altar portátil, o telemóvel na mão como um crucifixo de plástico, oferecendo ao deus invisível o sacrifício diário da própria vergonha: o corpo retocado, o filho encenado, o jantar que nunca comemos, o avô que tem de vir de claro para não estragar a paleta da felicidade alheia. E competimos, meus senhores, competimos fero...
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Fumo Colorido sobre Cinzas Reais: O Chá Revelação como Ritual do Narcisismo Hipermoderno O momento em que os futuros pais descobrem o sexo do filho foi, durante séculos, um acto privado, quase sagrado: uma informação sussurrada no consultório, partilhada primeiro com a família mais próxima ou guardada até ao nascimento como último véu de mistério. Hoje, esse instante tornou-se espectáculo público. O “chá revelação” — ou gender reveal party — transformou um dado médico num evento coreografado, filmado, partilhado e consumido. O que era intimidade tornou-se performance; o que era espera tornou-se conteúdo. Para compreender esta mutação cultural, duas lentes teóricas revelam-se particularmente esclarecedoras: a crítica da sociedade do espectáculo de Guy Debord e a análise da hipermodernidade de Gilles Lipovetsky. Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo (1967), diagnosticou com precisão cirúrgica o momento histórico em que “tudo o que era vivido directamente se tornou mera repre...
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Matte Kudasai Há décadas que esta canção me acompanha. “Matte Kudasai”. “Espera, por favor.” Os King Crimson gravaram-na em 1981, no álbum Discipline , e desde então ela nunca saiu de mim. É uma peça mínima, quase imóvel: um slide guitar que chora como chuva fina numa vidraça, um baixo que respira devagar, uma voz que pede sem exigir. A letra é curta, quase haiku: She waits in the chair by the window She waits for the night to fall She waits for the night to fall Matte kudasai Matte kudasai Não há drama, não há grito. Apenas espera. Uma espera limpa, digna, quase japonesa na sua contenção. A mulher da canção não se revolta; fica sentada, quieta, a ver o dia morrer lá fora. Espera que a noite caia, espera que algo aconteça, espera que alguém volte. E o pedido é suave, quase um sussurro: “Espera, por favor.” Não é ordem. É súplica delicada. Sempre que a ouço, sinto um aperto no peito. Porque sei o que é esperar assim. Matte kudasai. Espera, por favor.
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O avô que não foi de branco (e por isso não foi) Era uma vez um avô que recebeu um convite. Não veio por carta selada, nem por voz tremida ao telefone, nem por um abraço na porta de casa com a notícia sussurrada ao ouvido. Veio por WhatsApp , uma imagem bonita, com data, coordenadas GPS e, no fim, em letra miúda mas imperiosa: dress code: roupas claras. “dress code: roupas claras”. Para uma festa de revelação. Para ele saber, finalmente, se ia ter um neto ou uma neta. Como se o sexo do bebé fosse um prémio de lotaria anunciado num palco, com luzes baixas e música de fundo, e ele, o avô, tivesse de ir vestido de linho bege ou algodão off-white para não destoar do cenário instagramável. Agora obrigado a escolher uma camisa clara para não “estragar a fotografia de grupo”. Era como se lhe dissessem: “Vem, mas vem coordenado. O branco ou o creme ajuda na paleta de cores quando o fumo rosa ou azul explodir." O avô parou, releu a mensagem, e sentiu qualq...
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Por que levaria The Sunset Limited para uma ilha deserta Se me obrigassem a escolher um único filme para levar para uma ilha deserta — um daqueles exercícios idiotas que toda a gente faz para parecer interessante —, eu não hesitaria: The Sunset Limited. Não é por ser o mais bonito, nem o mais emocionante, nem sequer o mais divertido (Deus me livre). É porque é o filme que melhor me lembra que a vida, no fundo, se resume a duas pessoas sentadas a uma mesa a tentar convencer-se mutuamente de que vale a pena continuar. O filme é de 2011, mas parece mais antigo, como se tivesse sido filmado num tempo em que ainda se acreditava que o diálogo podia mudar alguma coisa. Tommy Lee Jones realiza e interpreta o White, um professor universitário branco, ateu militante, que tentou atirar-se para a frente de um comboio chamado Sunset Limited — o nome já diz tudo: o pôr-do-sol, o limite, o fim da linha. Samuel L. Jackson é o Black, um ex-presidiário negro que o salvou e o levou para o seu apart...
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António Lobo Antunes não escrevia crónicas. Escrevia autópsias. Abria o peito da língua portuguesa e mostrava-nos o coração ainda a bater, cheio de sangue, de merda e de poesia. E nós, que somos uns merdas sentimentais, ficávamos ali a olhar, sem saber se chorávamos ou se aplaudíamos.» Pois é. As Crónicas não são crónicas no sentido banal da palavra — aquelas coisas leves que se lêem no jornal com o pequeno-almoço e se deitam fora com a casca da laranja. São pedaços de vida arrancados à força, com unhas e dentes, e depois cosidos uns aos outros com linha cirúrgica. Há nelas a mãe que o segurou ao colo (a mesma da capa, suponho), o pai que era médico e que lhe ensinou a ver o corpo como um mapa de feridas, a guerra de Angola que o marcou como um ferro em brasa, e depois Lisboa, sempre Lisboa, essa cidade que ele amava e odiava na mesma frase, como se ama e odeia uma mulher que nos deixa cicatrizes bonitas. Lobo Antunes escrevia como quem desfia um novelo de arame farpado: cada frase co...