Honora, o álbum de estreia a solo de Flea, já disponível


Honora, ou o dia em que o Flea parou de saltar

Há discos que chegam como um soco no estômago e outros que chegam como um suspiro longo, daqueles que se solta quando se percebe que afinal não era preciso correr tanto. Honora, o primeiro álbum a solo verdadeiro de Flea, é dos segundos. Saiu a 27 de março de 2026 pela Nonesuch e, aos 63 anos (ou lá perto), o homem que durante décadas foi o baixo elétrico mais hiperactivo do planeta decidiu, finalmente, sentar-se.

Não é metáfora. Ele sentou-se mesmo. Deixou de saltar como um miúdo drogado de adrenalina nos palcos dos Red Hot Chili Peppers e pegou no trompete — o instrumento que amava em criança, quando sonhava ser Dizzy Gillespie e ouvia Miles Davis e Thelonious Monk em casa do padrasto. Praticou todos os dias, em digressão, em hotéis, entre um concerto e outro, enquanto o mundo continuava a pedir-lhe funk suado e camisas sem mangas. E um dia disse: chega. Vou fazer o disco que sempre quis.

O resultado chama-se Honora. O nome vem de uma pessoa querida da família (uma bisavó, segundo algumas vozes; o Flea não explica muito, e faz bem). A capa é uma fotografia antiga, dos finais dos anos 60, da sogra dele, Shahin Badiyan, uma mulher persa forte, em Iran, com um ar de quem carrega no olhar o espírito de um país livre que ainda não se tinha perdido. Não é uma foto dele a fazer caretas com o baixo. É uma imagem serena, quase melancólica, de alguém que olha para longe. Combina perfeitamente com o que se ouve lá dentro.

São dez faixas, pouco mais de cinquenta minutos. Seis originais e quatro versões. Nada de acrobacias funk-rock. Aqui o baixo passeia devagar, o trompete respira, há espaços onde o silêncio conta tanto como as notas. “Golden Wingship” abre o disco como uma ponte curta e psicadélica, quase a pedir desculpa por ter demorado tanto tempo. Depois entra “A Plea”, quase oito minutos de flauta, voz falada do próprio Flea e um trompete que parece pedir qualquer coisa ao céu. “Traffic Lights”, com Thom Yorke, é o momento mais radioheadiano do álbum: sintetizadores frios, piano discreto, uma melancolia urbana que contrasta lindamente com o jazz orgânico do resto.

Há um “Maggot Brain” do Funkadelic que deve deixar os fãs antigos de boca aberta — não é paródia, é reverência profunda. Há “Thinkin Bout You” de Frank Ocean, “Wichita Lineman” de Jimmy Webb (com Nick Cave a emprestar aquela voz sombria que parece vir do fundo de um poço) e “Willow Weep for Me”. E há faixas como “Fraiiled”, mais de dez minutos, onde o disco se alonga, se estica, como se o tempo tivesse deixado de ser um problema.

O que impressiona não é a técnica (embora os músicos que o acompanham — Josh Johnson no sax e produção, Anna Butterss no baixo, Deantoni Parks na bateria, Jeff Parker na guitarra — sejam de outro nível). O que impressiona é a humildade. Flea não tenta provar que é um jazzman de carteirinha. Ele toca como quem voltou a casa depois de uma vida inteira na estrada. Há imperfeições, há momentos em que o trompete vacila um bocadinho, e isso é bonito. É humano. É o oposto exacto do espectáculo que ele ajudou a construir durante décadas com os Chili Peppers.

Para mim, e digo-te sem rodeios, Honora é o disco do ano de 2026 até agora. Não por ser perfeito — não é. É por ser verdadeiro. É o som de um homem que, depois de conquistar tudo o que se pode conquistar no rock, decidiu regressar ao princípio, sem pose, sem pressa, sem medo de parecer pequeno. É um álbum sobre tempo recuperado. Sobre promessas feitas a si próprio na adolescência e cumpridas na velhice. Sobre escolher, finalmente, tocar a música que lhe dá prazer em vez da que dá dinheiro ou fama.

Ouvi-o várias vezes nestes dias. Primeiro com atenção de crítico, depois com os auscultadores postos enquanto fazia o pequeno-almoço, depois de noite, com a luz apagada, só o trompete e o baixo e o silêncio de Coimbra lá fora. E cada vez gosto mais. Não é disco para dançar. É disco para pensar, para sentir o peito apertar um bocadinho, para sorrir com melancolia quando o Flea canta, com aquela voz rouca e sincera, que parece pedir desculpa por ter demorado tanto.

Se alguém ler isto daqui a dez anos, espero que o disco ainda exista. Que continue a tocar em qualquer lado. Porque Honora não é só um álbum de jazz feito por um baixista famoso. É a prova de que nunca é tarde para voltar ao que realmente nos move. Mesmo que o mundo inteiro espere que continuemos a saltar.


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