Páscoa, a grande mixórdia
Ora aqui estamos nós outra vez, meus senhores, a celebrar a Páscoa com a seriedade de quem não sabe bem o que celebra. Uns comem cabrito, outros chocolate, outros ainda nem sabem se é religião, se é tradição, se é só uma desculpa para fechar a loja e ir para a praia.
Mas vamos por partes, com a honestidade que o caso merece.
Primeiro, a origem judaica — o Pessach. Segundo o Livro do Êxodo, o bom Deus, todo-poderoso e infinitamente misericordioso, decidiu libertar o seu povo escolhido passando por cima das casas dos hebreus (devidamente marcadas com sangue de cordeiro) e matando, de uma só vez, todos os primogénitos do Egipto. Sim, senhor, está escrito: Livro do Êxodo, no Antigo Testamento (Pentateuco), e é conhecida como a décima praga do Egipto — a morte dos primogénitos.
Referência exacta:
Êxodo 12:1-30 (principalmente os versículos 12:12-13 e 12:29-30).
Deus, na sua infinita bondade, resolveu tratar do problema da escravidão com um infanticídio em massa. Crianças inocentes mortas para provar um ponto. É bonito, não é? É o tipo de detalhe que se costuma omitir nas catequeses de domingo, mas que fica lá, a sangrar discretamente entre as linhas da Bíblia.
Depois, a Igreja olhou para isto tudo e disse: “Ora bem, isto é um bocado forte para o público ocidental. Vamos lá adoçar a história.” E adoçou. Pegou nas festas pagãs da Primavera — aquelas em que se celebrava o renascimento da natureza, o regresso da luz, a fertilidade da terra, os ovos, os coelhos, os rituais de fecundidade — e disse: “Pronto, vamos cristianizar isto.” Porque era mais fácil converter os pagãos se os deixássemos ficar com as festas, com os ovos e com os coelhos. Só trocaram a deusa Eostre por Jesus, o sangue de cordeiro por chocolate, e o renascimento da natureza pela ressurreição do Filho de Deus.
Resultado? Uma bela salada. Uma festa que é, ao mesmo tempo, judaica, pagã e cristã, com um toque final de marketing suíço. Porque, sejamos sinceros, hoje em dia a Páscoa verdadeira não é a ressurreição de Cristo. É a ressurreição do consumo. É o ovo de chocolate de 15 euros que a criança abre com os olhos a brilhar, enquanto os pais fingem que isto ainda tem algum significado espiritual.
E o mais engraçado é que toda a gente participa nesta comédia com uma cara muito séria. Os crentes celebram a vitória sobre a morte. Os não-crentes celebram a vitória sobre o tédio de não ter feriado. E os comerciantes celebram a vitória sobre a carteira dos clientes.
No fundo, a Páscoa moderna é o exemplo perfeito da nossa civilização: Pegamos em algo antigo, sagrado e profundo, misturamos com sangue, com chocolate, com tradição e com marketing, e servimos com um sorriso plastificado.
E depois ainda nos admiramos que a fé esteja moribunda e que o chocolate seja a única coisa que verdadeiramente ressuscita.
Pois é, meus senhores. Era de esperar.

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