Dois rostos da mesma manhã

Ontem de manhã, em Coimbra, uma máquina aprendeu a chorar com uma guitarra. Hoje de manhã, na mesma página do jornal, outra máquina aprendeu a matar sem remorso.

Não é metáfora. É calendário.

De um lado, investigadores da Universidade de Coimbra, com nomes que parecem saídos de uma lista de bolseiros sérios, ensinam a uma inteligência artificial a distinguir a melancolia outonal de Nick Drake da embriaguez quente de John Martyn. A máquina escuta, analisa harmonias, ritmos, timbres, palavras, silêncios, e devolve-nos uma playlist que sabe, melhor do que muitos amigos, quando precisamos de consolo ou de um pontapé no orgulho. É quase poético. Quase humano. Quase redentor.

Do outro lado, na capa da Visão, o mesmo tipo de inteligência aparece vestido de titânio e camouflage: robôs de combate, drones armados, algoritmos que decidem em milissegundos quem vive e quem morre no Irão ou em qualquer outro teatro de operações onde os humanos já não querem sujar as mãos. “Arma Mortal” é o título, em letras garrafais, como se fosse um filme de acção dos anos 80. Só que não é filme. É o futuro que já chegou ao presente, disfarçado de reportagem.

E o mais extraordinário é que aconteceu no mesmo dia.

Avançámos o relógio uma hora, ganhámos luz ao fim da tarde, e perdemos, sem dar por isso, a capacidade de fingir que a tecnologia é neutra. Porque não é. A mesma arquitectura neuronal que hoje reconhece a tristeza numa progressão de acordes menores pode amanhã reconhecer o alvo perfeito numa imagem térmica. Basta mudar o conjunto de treino. Basta mudar o dono.

Alexandre O’Neill teria escrito qualquer coisa assim, com o cigarro ao canto da boca e o copo de tinto pela metade:

“Demos-lhe alma para chorar com o fado e agora ensinamo-la a matar sem remorso. Ó progresso, ó maravilha, que até o diabo fica com inveja da nossa capacidade de contradizer-nos no mesmo parágrafo.”

De um lado, ajudamos as pessoas a encontrar a canção certa para quando o coração aperta. Do outro, ajudamos outras pessoas a garantir que certos corações parem de bater. A mesma ferramenta. Dois mestres. Dois futuros.

E Portugal, coitado, continua no meio, como sempre: com uma perna em Coimbra, a inventar coisas bonitas, e outra perna em qualquer lugar onde se vendam drones e algoritmos de morte, porque o negócio é negócio e a neutralidade tecnológica é uma mentira que contamos a nós próprios para dormirmos melhor.

Avançámos o relógio. Ganhámos uma hora de luz. E adiamos, mais uma vez, o escuro que vem quando percebemos que demos à máquina exactamente aquilo que ela não devia ter: o poder de escolher, por nós, quem merece consolo e quem merece silêncio.

No mesmo dia. Na mesma manhã. Duas notícias. Um só espelho.

E o espelho, como todos os bons espelhos, não mente. Mostra-nos exactamente o que somos: capazes do mais delicado e do mais brutal, às vezes com a mesma tecla.

Só não sabemos ainda qual das duas faces vamos alimentar mais.




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