Vaidade das Vaidades (edição sem anestesia)
Vivemos todos de cara lavada,
com o sorriso plastificado para a objectiva,
dizendo “amo a vida”
enquanto vendemos a alma aos bocadinhos
por um punhado de likes de desconhecidos.
Somos tão autênticos
que até a mentira vem com filtro Valencia,
tão profundos
que cabemos num quadrado de três por três,
tão generosos
que só damos o que fica bem na fotografia
e ainda pedimos palmas por isso.
Cada um com o seu pequeno altar portátil,
o telemóvel na mão como um crucifixo de plástico,
oferecendo ao deus invisível
o sacrifício diário da própria vergonha:
o corpo retocado, o filho encenado,
o jantar que nunca comemos,
o avô que tem de vir de claro
para não estragar a paleta da felicidade alheia.
E competimos, meus senhores, competimos ferozmente,
como galinhas de capoeira,
para ver quem consegue ser mais visto,
mais amado, mais invejado,
mais real do que o vizinho.
Porque hoje em dia
não basta ser.
É preciso parecer ser.
E parecer ser melhor do que o ex,
melhor do que os pais,
melhor do que o próprio reflexo no espelho.
Somos todos estrelas de um filme
em que ninguém é espectador,
apenas actores secundários
a filmar-se uns aos outros
num círculo vicioso de vaidade desesperada.
E quando o fumo cor-de-rosa ou azul
se dissipa, quando o último like chega,
ficamos sozinhos com o telemóvel frio na mão
e a mesma pergunta antiga,
a que ninguém tem coragem de responder:
— Afinal, quem sou eu
quando ninguém está a ver?
Ninguém.
Absolutamente ninguém.
Mas continuamos a sorrir para a câmara,
porque é melhor ser visto
do que ser.
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