Avanço de Hora
Avançamos o relógio,
como quem, num gesto de prestidigitador cansado,
empurra o ponteiro para a frente
e declara vitória sobre o tempo —
esse velho credor que nunca perdoa dívidas.
Ganhei uma hora, dizemos,
com a soberba dos que acreditam
poder negociar com a eternidade.
Uma hora de luz a mais,
uma hora de crepúsculo adiado,
como se o escuro fosse um inquilino
a quem se pode atrasar o despejo
com um simples gesto do pulso.
Mas o tempo, ó meu caro,
não é relógio nem ponteiro;
é o próprio rio de Heraclito,
que não se deixa medir por mecanismos suíços
nem por convenções de Bruxelas.
Avançamos o mostrador
e fingimos que enganámos Cronos,
quando apenas adiamos o encontro
com a sombra que já nos espera
no fim do corredor.
Quantas vezes, ao longo dos séculos,
não fizemos o mesmo?
Os romanos atrasavam as clepsidras,
os monges adiantavam as matinas,
nós, modernos, rodamos o botão digital
e proclamamos: vencemos a noite!
Como se a noite fosse uma conta
que se pudesse pagar em prestações.
E contudo,
no silêncio que se segue ao clique do relógio,
ouve-se o riso manso do escuro:
“Pobres mortais,
que pensais dobrar-me com um mecanismo
quando eu sou o próprio tecido
onde o vosso mecanismo se inscreve.”
Avançamos o relógio
e adiamos o escuro.
Mas o escuro não se atrasa.
Chega, pontual como a morte,
com o seu casaco de veludo negro,
e encontra-nos ainda a bocejar,
com os olhos inchados de luz roubada,
a fingir que o dia continua.
Ó relógio manhoso,
ó cúmplice da nossa vaidade,
quantas ilusões cabem
num simples quadrante de números?
Avançamos uma hora
e perdemos, sem dar por isso,
a única que verdadeiramente importa:
aquela em que, por um instante,
podíamos ter olhado o escuro de frente
e dito, sem medo nem artifício:
“Chegaste. Sê bem-vindo.”
Porque o escuro, afinal,
não é o inimigo.
É o espelho fiel
onde aprendemos
que todo o avanço
é apenas
um recuo disfarçado.

Comentários
Enviar um comentário