Por que levaria The Sunset Limited para uma ilha deserta

Se me obrigassem a escolher um único filme para levar para uma ilha deserta — um daqueles exercícios idiotas que toda a gente faz para parecer interessante —, eu não hesitaria: The Sunset Limited. Não é por ser o mais bonito, nem o mais emocionante, nem sequer o mais divertido (Deus me livre). É porque é o filme que melhor me lembra que a vida, no fundo, se resume a duas pessoas sentadas a uma mesa a tentar convencer-se mutuamente de que vale a pena continuar.

O filme é de 2011, mas parece mais antigo, como se tivesse sido filmado num tempo em que ainda se acreditava que o diálogo podia mudar alguma coisa. Tommy Lee Jones realiza e interpreta o White, um professor universitário branco, ateu militante, que tentou atirar-se para a frente de um comboio chamado Sunset Limited — o nome já diz tudo: o pôr-do-sol, o limite, o fim da linha. Samuel L. Jackson é o Black, um ex-presidiário negro que o salvou e o levou para o seu apartamento pobre, onde os dois passam noventa minutos a discutir se a vida tem sentido ou se é só uma piada cruel que Deus (ou a ausência dele) nos pregou.

Não há música de fundo a forçar a emoção, não há flashbacks dramáticos, não há sequer uma janela com vista para o mundo. Há uma cozinha feia, uma mesa de fórmica, duas cadeiras e o cheiro imaginário a café requentado. E há palavras. Palavras afiadas, palavras que sangram, palavras que tentam consolar e palavras que destroem. Cormac McCarthy escreveu a peça original em 2006 — uma “novela em forma dramática”, como ele gosta de chamar —, e o texto é puro osso: sem gordura, sem ornamentos, só o essencial. Em português ainda não saiu editado (uma lacuna vergonhosa das nossas editoras), mas li-o em inglês e senti-o como um murro no estômago. É o McCarthy dos silêncios, o mesmo que em Blood Meridian ou The Road nos obriga a olhar para o abismo sem pestanejar.

As interpretações são magistrais, ponto final. Tommy Lee Jones traz ao White uma secura aristocrática, um cansaço de quem já leu todos os livros e concluiu que nada compensa. A voz dele é baixa, cortante, quase didáctica no desespero. Samuel L. Jackson, por outro lado, dá ao Black uma fé que não é piegas nem fanática: é uma fé de quem já esteve no fundo do poço e decidiu que, mesmo lá em baixo, há luz suficiente para não desistir. Quando ele diz “I believe that whatever it is that happens to us, it happens for a reason”, não está a pregar; está a tentar salvar uma vida, a dele próprio incluída. Os dois actores conhecem-se desde a peça original em Chicago e isso nota-se: há uma intimidade que não se finge, um respeito mútuo que torna o confronto ainda mais doloroso.

Adoro este filme porque ele não me dá respostas. Não me diz se Deus existe ou se o niilismo tem razão. Não me consola nem me condena. Obriga-me a sentar-me com as minhas próprias dúvidas, a ouvi-las em voz alta, a ver se aguento o som delas. Numa ilha deserta, onde não há distracções, onde o mar bate e o silêncio é absoluto, este filme seria o meu espelho mais cruel e mais necessário. Porque, no fim, é disso que se trata: duas vozes a discutir se vale a pena levantar amanhã. E eu, sozinho na areia, teria de decidir qual das duas vozes é a minha.

Se me perguntarem por que levo este filme e não outro qualquer — Casablanca, ou 2001, ou O Padrinho —, respondo sempre a mesma coisa: porque este é o filme que me obriga a ser honesto comigo próprio. E numa ilha deserta, a honestidade é a única companhia que não nos trai.


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