António Lobo Antunes não escrevia crónicas. Escrevia autópsias. Abria o peito da língua portuguesa e mostrava-nos o coração ainda a bater, cheio de sangue, de merda e de poesia. E nós, que somos uns merdas sentimentais, ficávamos ali a olhar, sem saber se chorávamos ou se aplaudíamos.»
Pois é. As Crónicas não são crónicas no sentido banal da palavra — aquelas coisas leves que se lêem no jornal com o pequeno-almoço e se deitam fora com a casca da laranja. São pedaços de vida arrancados à força, com unhas e dentes, e depois cosidos uns aos outros com linha cirúrgica. Há nelas a mãe que o segurou ao colo (a mesma da capa, suponho), o pai que era médico e que lhe ensinou a ver o corpo como um mapa de feridas, a guerra de Angola que o marcou como um ferro em brasa, e depois Lisboa, sempre Lisboa, essa cidade que ele amava e odiava na mesma frase, como se ama e odeia uma mulher que nos deixa cicatrizes bonitas.
Lobo Antunes escrevia como quem desfia um novelo de arame farpado: cada frase cortava, mas era impossível parar de puxar. E o mais estranho é que, no meio de tanta dor e tanta raiva, havia sempre uma ternura escondida, quase envergonhada. Aquela ternura que só os grandes cirurgiões têm quando suturam uma ferida que eles próprios abriram. Em As Crónicas isso vê-se bem: fala da infância, da ditadura, da revolução, dos doentes no hospital, das putas, dos loucos, dos mortos — e no fundo está sempre a falar de amor. Um amor torto, sujo, impossível, mas amor.
Quando penso nele agora, morto, penso naquela frase dele que nunca mais me saiu da cabeça: «A literatura é o único sítio onde os mortos continuam a falar.» Pois é. Ele calou-se hoje, mas as vozes dele continuam todas lá dentro dos livros, a resmungar, a rir por entre dentes, a insultar-nos com carinho. Ficamos mais pobres, sim. Mas também ficamos mais ricos, porque ele deixou-nos um baú cheio de palavras que ninguém mais conseguiria escrever.
Eu cá fico aqui, com o livro aberto na mesa da cozinha, a olhar para aquela fotografia da mãe e do menino. O menino cresceu, tornou-se um gigante da língua, e agora morreu. E a mãe, que já morreu há décadas, continua a segurá-lo no colo, como se soubesse que um dia ele ia precisar de ser segurado outra vez.
António Lobo Antunes. Obrigado por nos ter mostrado o interior das coisas. Descanse em paz, doutor. Ou, como ele próprio diria, descanse em pedaços. Mas pedaços bonitos.
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