O avô que não foi de branco (e por isso não foi)
Era uma vez um avô que recebeu um convite. Não veio por carta selada, nem por voz tremida ao telefone, nem por um abraço na porta de casa com a notícia sussurrada ao ouvido. Veio por WhatsApp, uma imagem bonita, com data, coordenadas GPS e, no fim, em letra miúda mas imperiosa: dress code: roupas claras.
“dress code: roupas claras”. Para uma festa de revelação. Para ele saber, finalmente, se ia ter um neto ou uma neta. Como se o sexo do bebé fosse um prémio de lotaria anunciado num palco, com luzes baixas e música de fundo, e ele, o avô, tivesse de ir vestido de linho bege ou algodão off-white para não destoar do cenário instagramável. Agora obrigado a escolher uma camisa clara para não “estragar a fotografia de grupo”. Era como se lhe dissessem: “Vem, mas vem coordenado. O branco ou o creme ajuda na paleta de cores quando o fumo rosa ou azul explodir."
O avô parou, releu a mensagem, e sentiu qualquer coisa a partir-se lá dentro, bem fundo, devagar, como um copo que cai em câmara lenta e não faz barulho. Não, aquilo não era birra de avô; era luto por uma intimidade que se perdera no caminho. Aquilo não era só tristeza; era uma espécie de exílio afectivo. Fora posto de fora do círculo íntimo, e o círculo íntimo fora substituído por um círculo de likes e stories.
Uma imagem com data, coordenadas GPS, dress code no fim – parecia um e-mail de trabalho, ou pior, um convite para um evento corporativo onde o importante era a logística e a estética, não o coração das pessoas. E ele, agora era convidado a comparecer vestido de linho bege ou algodão off-white, para não estragar a fotografia de grupo. Para não destoar do cenário. Para ser um figurante coordenado num espectáculo que já não lhe pertencia.
Antigamente – e não se fala de há cem anos, fala-se de há vinte, trinta – quando nascia um neto, a família juntava-se em casa, à mesa, com um bolo caseiro, um copo de porto ou de moscatel, e alguém dizia, baixinho: “É menino” ou “É menina”. Não havia dress code. Não havia “roupas claras” para que o confetti caísse bem na objectiva do telemóvel. Havia gente. Havia calor humano. Havia a certeza de que aquele momento pertencia primeiro aos que já amavam antes mesmo de saber o nome.
Agora há um código de vestuário para não destoar com o tema. Porque o importante não era o que ele sentia no peito quando soubesse; era o que ficava registado no feed. Era o like, o story, o “que lindo casal!” nos comentários. E ele, avô, era convidado a participar nesse teatro, mas com figurino adequado. Roupas claras. Como se o seu coração precisasse de filtro warm para bater correctamente.
O avô pensou em tudo isso enquanto olhava para o telemóvel frio na mão. E decidiu: não iria de branco. Se fosse – e ainda não sabia se iria –, iria de preto, só para lembrar que nem tudo se coordena com a paleta. Ou talvez não fosse. Talvez ficasse em casa, com um copo de vinho do Porto, e brindasse sozinho ao neto ou à neta que ainda não sabia o nome, mas que já amava. Porque o dress code verdadeiro, o único que importava, era o da lealdade ao que se sente: amor sem adereços, sem paleta de cores, sem contagem regressiva.
Dress code para saber o sexo do neto: o branco da rendição, o cinzento da resignação, o preto da recusa.
E se alguém lhe perguntasse por que não fora, ele diria a verdade, sem azedume mas sem dó: Porque o meu neto merece mais do que um avô de roupa clara. Merece um avô que ainda sabe chorar sem precisar de música de fundo.

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