O Populismo Ventura: Um Vírus que Entra pela Janela Aberta
Estava eu ontem à tarde num café da Baixa, daqueles que ainda cheiram a pastel de nata e a jornal molhado, a ver o ecrã da televisão com o debate da segunda volta. André Ventura, de gravata vermelha, a falar alto como quem tem razão só porque grita mais; António José Seguro, calmo, a tentar responder com factos que ninguém ouvia. Pensei: afinal, isto é o que resta da polis? Um duelo onde o argumento cede ao meme, e o medo ganha pontos.
Ventura e o Chega não são um acidente. São um sintoma, sim, mas um sintoma que já se tornou doença crónica. De um deputado solitário em 2019 a terceira força no Parlamento — com 50 ou 60 deputados, dependendo do dia em que se conta —, o Chega capitalizou o cansaço. O PS e o PSD, esses velhos casais que se zangam mas dormem na mesma cama, deixaram o espaço vazio. E Ventura entrou por aí: polarizando, simplificando, prometendo deportações em massa, castração química, “Portugal para os portugueses”. Sondagens de fevereiro de 2026 mostram-no na casa dos 28-30% na segunda volta, com Seguro à frente (52-53%), mas com uma fatia de indecisos e brancos que cresce. Não é vitória certa, longe disso. Mas é o suficiente para lembrar que o protesto não precisa de programa; precisa de raiva.
O que mais dói é ver de onde vêm esses votos. Muitos dos estratos com escolaridade básica, rurais, pobres — Beja, Évora, o interior que o país esquece. Ventura não os ignora; explora-os. Memes no TikTok, lives agressivas, chavões que dispensam factos. É como se dissesse: “Vocês não precisam de ler, precisam de sentir que alguém vos ouve.” E ouve, de facto — mas para os manter dependentes. Ataca a educação como “woke”, “elitista”, e assim garante o ciclo: menos literacia, mais tribo. Comparado ao Vox espanhol, é mais visceral, menos polido. Lá é desinformação elegante; cá é grito na rua.
Psicologicamente, encaixa na tal Dark Triad que os livros de psicologia popular adoram: narcisismo (a grandiosidade de se ver como salvador anti-sistema, apesar do curso de Direito e da carreira na televisão), maquiavelismo (mentiras calculadas, como a “invasão migratória” que os números desmentem mas o sentimento confirma), psicopatia subclínica (falta de empatia, agressões verbais que seduzem as bases). Não é patológico no sentido clínico — é funcional. Thriva no caos, racionaliza a hipocrisia (“são verdades maiores”), e a adulação digital alimenta o vazio. Trump, Bolsonaro: o mesmo padrão. Mas em Portugal, país pequeno, dói mais.
Filosoficamente, é o triunfo do mito sobre a razão — Platão já avisava dos sofistas. Ventura não debate; persuade com ressentimento nietzschiano, o escravo contra o senhor democrático. Contra Rawls ou Habermas, que sonhavam com deliberação racional, opõe o decisionismo de Schmitt: amigo contra inimigo, povo contra elites. A “vontade popular” (na verdade, a dele) dissolve a ética. Se a verdade for o que “o povo sente”, adeus direitos universais; olá privilégio nativista.
Antropologicamente, reacende archaismos: o comício como efervescência colectiva pervertida, o “nós” contra “eles” (imigrantes, “marxistas culturais”). Num país fragmentado pela globalização, crise da habitação, desemprego disfarçado, oferece pertença primária. É o homo lupus de Hobbes que regressa pelas redes sociais, fabricando narrativas de declínio nacional. Como a “Reconquista” do Vox, mas à portuguesa: saudade misturada com medo.
E patologicamente? É um vírus democrático: entra pelas fissuras da desconfiança, da desigualdade, da iliteracia digital, e metastatiza. Ventura assume o populismo abertamente, prospera na dissonância cognitiva. Se crescer — e estas presidenciais podem ser o trampolim —, arriscamos governação por decreto, minorias sob pressão, welfare seletivo, alianças com Le Pen ou AfD. A longo prazo: polarização violenta, como no Brasil ou na Hungria; abstenção crónica; fim do consenso de 1976. Portugal como “democracia iliberal”, onde o voto é catarse, não escolha.
No fundo, não é Ventura que é o problema; é o que permitimos que ele explore. O centro-partidário adormeceu, achando que a moderação bastava. Como Camões no Adamastor: ignorá-lo é consentir no naufrágio. Eu saí do café, a chuva fina de fevereiro molhava o passeio, e pensei: talvez o pior não seja ele ganhar. O pior é nós continuarmos a fingir que isto é só barulho passageiro. Não é. É o espelho que nos mostra o que deixámos de ser.

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