Calamidade à Moda da Casa

 

Chove a potes, chove, 

como se o céu tivesse engolido o dilúvio todo  

e agora regurgitasse rios de luto  

sobre este país de mansos hábitos,  

onde o povo range os dentes por dentro  

mas engole tudo, resignado, 

como quem murmura "vá lá, é o fado".

 

Os mandarins estão nas nuvens,  

nas nuvens para os afogados, os desabrigados,  

as ruínas que bebem água até ao gargalo,  

representam peças teatrais na caixa mágica,  

obcecados só com os aplausos fáceis,  

com os votos dos que ainda mordem  

a isca da retórica barata que nos enfiam goela abaixo  

como remédio amargo para males inventados.

 

Deram com os asnos no lameiro,  

despertaram quando o barco já afundava,  

quando os rios transbordavam fúria  

e os bombeiros arrancavam as entranhas ao peito,  

esses mártires sazonais, invocados só na borrasca,  

sem reforços, sem alento, 

a resgatar o que sobra deste Portugal protelado.

 

E nós, com os mansos hábitos imortais,  

rangemos os dentes em silêncio,  

mas lá vamos tragando 

a encenação, a charlatanice doce, o oportunismo rasteiro,  

como quem suspira "é o que calha",  

enquanto o céu despeja a potes  

e o país bebe água por todas as fendas.

 

Que maçada esta de ser português,  

sempre a fazer das tripas coração  

para que nada se altere de facto.

Só os fatos.

 

(O'Neill, se me ouvisse,  

torceria o beiço e diria: "Pois claro,  

é o nosso eterno folhetim.")



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