Cinco passos, uma porta arrombada sem chave
Abri a porta de casa e ali estava ele, dobrado e encostado ao rodapé como um intruso que já se sente em casa. Um folheto vermelho-sangue, com uma estrada sinuosa desenhada em preto e branco, cinco silhuetas humanas a marcharem por ela rumo a um destino que o título proclama em letras pretas e imperiosas: **5 PASSOS PARA A SALVAÇÃO**. Alguém — não sei quem, nunca saberei — tinha empurrado aquilo por baixo da minha porta. Sem toque de campainha. Sem “com licença”. Sem direito de recusa.
Peguei no papel com a ponta dos dedos, como se pudesse contaminar. Sentei-me na sala e li. Não por curiosidade piedosa, mas por espanto. Porque aquilo não é um convite. É uma ordem disfarçada de salvação. Cinco passos numerados, como um manual militar para a alma: reconhece que és pecador (obrigatório), admite que não te salvas sozinho (obrigatório), crê que os teus pecados foram despejados em Jesus (obrigatório), crê que só Ele salva (os outros — Maomé, Buda, Moisés, padres, papas — são despachados como concorrentes falhados), e finalmente: recebe-O agora, imediatamente, sem adiamentos. “Não adies. Aceita-O agora, agora mesmo!”
O texto não pergunta. Afirma. Cita versículos como quem apresenta provas irrefutáveis num tribunal que já condenou toda a gente à partida. “Todos pecaram.” “Nenhum outro nome.” “Só Cristo.” A urgência é quase histérica: o tempo acaba-se, o dia da salvação é hoje, rejeitar é condenar-se. E no fim, um endereço em Vila Nova de Anços, na Morada do Carimbo, com telefone e a garantia de que é gratuito — como se o preço fosse só o da invasão.
Porque é isso que é: uma invasão. Alguém decidiu que a minha casa, o meu espaço privado, o lugar onde fecho a porta ao mundo, é território missionário. Que pode entrar sem autorização, deixar um pedaço de propaganda fanática no chão da entrada e sair como se nada tivesse acontecido. Não é um postal de amigo. Não é um folheto de pizza ou de ginásio. É uma declaração de guerra espiritual: ou te convertes pelos meus cinco passos, ou estás perdido. E eu, que não pedi opinião, que não abri a porta, que não dei morada para sermões, fico com o papel na mão, sentindo-me violado no mais básico dos direitos: o de não ser importunado na própria casa.
Há qualquer coisa de autoritário nisto. Não é o fanatismo que incomoda mais — fanatismo há sempre, e cada um com o seu. É a presunção de que a minha privacidade não conta. Que a minha descrença, a minha indiferença, a minha recusa em seguir um roteiro bíblico resumido em cinco pontos é irrelevante. Que basta enfiar o folheto por baixo da porta para que a “verdade” entre, como um vírus que se instala sem consentimento.
Guardei o papel na gaveta, não por respeito, mas por testemunho. Para me lembrar que, num dia banal de 2026, ainda há quem ache que a salvação se impõe assim: sem bater à porta, sem esperar resposta, com a certeza absoluta de quem já decidiu por todos. E eu fico aqui, a olhar para a porta fechada, pensando: afinal, o que mais assusta não é o inferno que prometem. É o céu que querem obrigar-nos a aceitar.
Porque liberdade, essa sim, começa por poder dizer não. Mesmo a quem diz que vem em nome de Deus.



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