Os Corpos Tortos de Egon Schiele
Lembro-me de ter visto pela primeira vez um quadro de Egon Schiele numa reprodução barata, daquelas que se encontram em livros de arte comprados em feiras de velharias, e de ter ficado ali, parado, com uma sensação esquisita no estômago – não exactamente desconforto, mas algo mais próximo de um reconhecimento tardio, como se aqueles corpos magros, contorcidos, de linhas nervosas e cores doentias fossem espelhos de uma parte de mim que prefiro não olhar todos os dias. Era um auto-retrato, claro: Schiele pintava-se obsessivamente, como quem não consegue fugir ao próprio reflexo.
O rosto descarnado, os olhos fundos, a pele que parece esticada sobre ossos frágeis, com manchas de vermelho e verde que sugerem febre ou decomposição. Não há beleza serena aqui, como nos mestres antigos; há, isso sim, uma crueza que nos obriga a confrontar o corpo não como templo, mas como prisão. Schiele, nascido em 1890 na Áustria, pupilo rebelde de Gustav Klimt – esse outro mestre do ouro e do erotismo decorativo –, cedo se afastou do mestre para mergulhar num expressionismo mais sombrio, mais visceral. Enquanto Klimt embrulhava os corpos em padrões luxuriantes, Schiele despia-os até ao osso, literal e figurativamente.
E os nus, ah, os nus... Esses desenhos a lápis ou aguarela, com modelos (muitas vezes raparigas jovens, prostitutas ou vizinhas) em poses escancaradas, pernas abertas, mãos que tocam ou se contorcem, sexos expostos sem pudor nem glamour. Na época, escandalizaram: em 1912, Schiele foi preso por "imoralidade", acusado de expor desenhos eróticos a crianças (embora a verdadeira razão fosse a sua vida boémia e os modelos que trazia para o estúdio). Passou semanas na cadeia, e daí saíram desenhos ainda mais intensos, como se a prisão tivesse apertado as linhas do seu traço.
Hoje, olhamos para estes nus e pensamos: que escândalo foi esse? Num mundo de redes sociais onde corpos se exibem em filtros e poses calculadas, os de Schiele parecem quase ingénuos na sua honestidade brutal. Não há sedução fácil; há angústia, vulnerabilidade, uma sexualidade que cheira a doença e morte. Os modelos não posam para agradar – posam como se estivessem sozinhos, expostos à sua própria solidão. E nós, espectadores, somos intrusos, voyeurs involuntários de uma intimidade que não nos pertence.
Havia, claro, a Wally – Valerie Neuzil, a musa ruiva, companheira de anos, modelo favorita. Schiele pintou-a com olhos azuis penetrantes, cabelo flamejante, numa mistura de ternura e possessão. Ela era o contraponto à sua neurose: mais terra, mais vida. Mas Schiele, sempre o egoísta genial, abandonou-a quando surgiu a oportunidade de um casamento "respeitável" com Edith Harms, a vizinha burguesa. Wally foi para a guerra como enfermeira e morreu jovem, de escarlatina. Schiele e Edith casaram, tiveram um filho que não sobreviveu, e depois, em 1918, a gripe espanhola levou-os aos dois – ele com apenas 28 anos, ela grávida, dias depois. Morreu no auge, deixando uma obra que parece pressagiar a sua própria finitude.
E há as paisagens, menos conhecidas, mas tão reveladoras: cidades vistas do alto, casas tortas, árvores secas, tudo em cores outonais, como se o mundo exterior reflectisse a tormenta interior. Não são paisagens tranquilas; são visões de um mundo que se desmorona, como a Europa que entrava na Grande Guerra. Schiele pintava a natureza como pintava os corpos: angulosa, inquieta, sem harmonia falsa.
Às vezes pergunto-me o que faria Schiele hoje. Provavelmente, seria cancelado numa semana – acusado de objectificação, de explorar modelos vulneráveis, de ser demasiado cru para o nosso tempo hipócrita, que devora imagens pornográficas mas finge incomodar-se com arte. Ou, quem sabe, seria uma estrela das redes: imagine os seus auto-retratos como selfies distorcidas, filtros de angústia existencial. Mas duvido – Schiele não queria likes; queria confrontar, incomodar, revelar o que escondemos debaixo da pele.
No fundo, é isso que me prende nele: aquela sensação de que a beleza verdadeira não está na perfeição, mas na fractura. Os seus corpos tortos são os nossos – magros demais, gordos demais, envelhecidos, desejantes, mortais. Olham-nos de frente e dizem: aqui estou, sem maquilhagem. E nós, que passamos a vida a disfarçar as nossas próprias contorções, sentimos um arrepio de reconhecimento. É desconfortável, sim, mas também libertador. Como se, por um instante, deixássemos de fingir.
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