A Minha Coimbra, Essa Cidade Que Me Abraça Até Doer
Ah, Coimbra, minha Coimbra dos anos setenta e oitenta, essa cidade que era um labirinto delicioso de ruas estreitas e cheias de alma, pós-25 de Abril, com a revolução ainda a pairar no ar como fumo de cigarros nos cafés, autocolantes vermelhos nas paredes que ninguém ousava tirar, e eu, miúdo entre os nove e os dezoito, a crescer no Beco da Carqueja, mesmo ao lado da Sé-Velha, essa catedral românica antiga que se erguia no largo como uma avó austera mas cheia de carinho escondido, com o portal manuelino a vigiar-nos, a nós, os miúdos que brincávamos aos cowboys nas escadas da igreja ou jogávamos à bola contra os portões das garagens, sem respeito aparente pelo sagrado — e no entanto tudo ali era sagrado, até a loucura das nossas pistolas de plástico que no carnaval viravam bisnagas enchidas na pia da água benta, para uma guerra santa molhada que ninguém levava a sério demais.
O beco era apertado, as pedras da calçada toscas e traiçoeiras, as sapatilhas fraquinhas que escorregavam, mas com os três amigos que lá moravam aprendi a dominar a bola em espaços minúsculos, a fazer fintas curtas e rápidas, como quem aprende a dançar com a vida inteira num palmo de chão. E ali, nesse mesmo beco, morara o grande Zeca Afonso — sim, o Zeca, o cantor da liberdade, que deixara uma placa discreta na parede como quem deixa um beijo eterno na cidade, ele que cantara "Grândola, Vila Morena" em tempos proibidos, e cuja presença parecia ainda ecoar nas noites quentes.
Da janela da avó, na Rua Borges Carneiro — a antiga Rua das Covas, nome que evocava segredos profundos —, via-as passar: as vendedeiras de Bolos de Ançã, cestos de vime na cabeça, pregão alto e ritmado "Bolos... de Ançã", e a avó a descer uns trocos para comprar um para mim, daqueles redondos e doces que se colavam aos dedos como prova de amor simples e açucarado; e logo depois as peixeiras, canastas na rodilha, cheiro a mar fresco a subir a rua inteira, misturando-se ao aroma dos bolos num perfume só de Coimbra. Do outro lado, no rés-do-chão, a tia-avó Clementina, figura rubeniana com decotes generosos e baton vermelho vivo nos lábios, porta sempre aberta como convite mudo, homens a entrar e sair rápidos, sombras discretas numa cidade que fingia não reparar.
As escadas do Quebra-Costas, ah, essas escadas que eu subia e descia a correr todos os dias para a Escola Primária de Almedina, junto ao Arco, essa porta antiga para a cidade — quebra-costas mesmo, quebra-almas por vezes, mas também ponte para o mundo inteiro. Ali perto moravam os Paredes, o Artur e o Carlos, mestres absolutos da guitarra portuguesa, e o Carlos compusera até uma peça chamada "Escadas do Quebra-Costas", como se aquelas pedras irregulares fossem notas de uma melodia eterna e saudosa. Às vezes via o Manuel Alegre a deambular por aquelas ruas, o poeta da revolução, que oferecera "Flores para Coimbra" como quem entrega um ramo à amante que nunca esquece.
Na Rua da Ilha, por onde espreitava a Torre da Universidade, no prédio antigo dos avós maternos, o pintor Mário Silva tinha o atelier no rés-do-chão — um dia, sabendo que eu já rabiscava como miúdo, convidou-me a entrar para ver as suas telas, cheias de cor rebelde e performances que chocavam a boa sociedade, ele que era anarquista de coração e pincel.
O largo da Sé-Velha era o coração pulsante: o café Oásis, pequeno e tosco, paredes cobertas de autocolantes e slogans vermelhos até ao tecto, onde os comunistas e os da LUAR se juntavam a conspirar entre cervejas imperiais frias e jogos de bilhar, chamando ao largo "Praça Vermelha" como se Coimbra fosse uma Moscovo revolucionária; e o café Sé-Velha, mais arranjadinho, com bolos que eram pecado puro, dos pais do meu amigo João, que também era do beco. A cidade inteira fervia em liberdade nova, pós-Abril, com mensagens revolucionárias pintadas nas paredes e debates que duravam noites inteiras.
À noite, as serenatas espontâneas dos estudantes, capas negras a esvoaçar como asas de corvos românticos, guitarras afinadas no fado de Coimbra, subindo as escadas da Sé-Velha — eu ouvia da janela do beco, ou escondido no largo, vozes a entoar "Coimbra é uma lição" ou "Saudade", eco que subia como um abraço colectivo à cidade adormecida. E todas as manhãs, pontual como um relógio com alma portuguesa, tocava "a cabra" — o sino da Torre da Universidade —, badaladas graves que acordavam estudantes boémios e miúdos como eu, chamando para as aulas com aquela irreverência carinhosa que só Coimbra tem.
Em casa, o velho Telefunken a preto-e-branco, caixa de madeira castanha, botões prateados, espera ansiosa pela mira-técnica ao fim da tarde; um dia, a primeira televisão a cores na montra da Rua da Sofia, multidão de olhos arregalados perante cores que pareciam magia pura. Apanhávamos boleia nos eléctricos amarelos que ainda tilintavam pela Rua Ferreira Borges e Visconde da Luz, pendurados nos estribos às escondidas dos revisores, aventura perigosa e deliciosa numa cidade que tinha aqueles bondes como veias vivas e amarelas.
Passeava muitas vezes pela Baixa, pela Rua Ferreira Borges, e lá estava ele, o Miguel Torga — na realidade Adolfo Correia da Rocha, médico com consultório no Largo da Portagem, onde via o Mondego correr sereno da janela —, já velhote e de bengala, encostado à parede da Farmácia Vilaça, junto às Escadas de Santiago, a ver as pessoas passar com aquele olhar profundo de quem escreve o mundo em diários. Passava por ele, miúdo, e sentia um arrepio de respeito, como se estivesse diante de um monumento vivo.
Depois as escolas mudavam: ciclo preparatório na Silva Gaio, secundário no Jaime Cortesão. Nos intervalos, atravessava para o mercado a céu aberto do outro lado da rua, burburinho de vozes, cheiros de fruta fresca e peixe, comprava almofadinhas — aquelas bolachas fofas e açucaradas, às vezes com uma abelha empoleirada no pó de açúcar, surpresa doce e viva — e voltava a correr para almoçar em casa.
Nas tabernas da Baixa, o espírito coimbrão puro: o Zé Manel dos Ossos, escondido num beco, paredes cobertas de mensagens rabiscadas, ossos de espinhaço suculentos e petiscos que enchiam a alma; o Mijacão, com bifanas fininhas e dezenas de opções de petiscos quentes; A Democrática, histórica e cheia de histórias de estudantes; e outras como o Cantinho do Céu, onde o vinho corria e as conversas se alongavam até de madrugada, cheiro a cozido e fado improvisado no ar.
O futebol, o grande amor eterno: primeiros passos no Campo de Santa Cruz, no Jardim da Sereia, jogando pela Académica, a Briosa negra, relva verde junto ao Mondego, sonhando golos épicos com a camisola a suar paixão portuguesa. E o mesmo Jardim da Sereia, em 1981, a pulsar com os concertos "Só Rock", organizados pela Rádio Comercial — eliminatórias aos fins-de-semana, bandas novas como os Alarme (que venceram a final a 5 de Julho no Estádio Municipal, com rock direto e energia pura), Opinião Pública, Brigada do Reumático, Avis Rara, a tocar para multidões de estudantes e miúdos como eu, boom do rock português no ar. E dois anos depois, em 1983, o mesmo jardim a receber o Zeca Afonso, já doente mas luminoso, para uma homenagem comovente — a 26 de Maio, a cidade deu-lhe a Medalha de Ouro, e ele esteve no palco, figura de destaque, num momento quase de despedida que ainda hoje aperta o coração.
E o Jardim Botânico, para onde ia namorar, esconderijos verdes entre árvores centenárias, fontes a murmurar segredos — ali dei o primeiro beijo, coração aos saltos como se o mundo inteiro coubesse naquele recanto de sombra e luz eterna.
Que Coimbra aquela, meu Deus — com Zeca no beco e no jardim, Paredes nas escadas, Alegre nos poemas, Torga encostado à farmácia a ver o tempo passar, eléctricos amarelos a tilintar, mercados cheios de almofadinhas e abelhas, serenatas à noite, a cabra de manhã, tabernas como o Zé Manel e A Democrática cheias de ossos e histórias, revolução no ar e fado no coração. Era imperfeita, barulhenta, deliciosa, portuguesa até ao tutano, e ainda hoje, quando fecho os olhos, sinto o cheiro a bolos de Ançã misturado com mar das peixeiras e vinho das tascas, o eco da guitarra dos Paredes e da voz do Zeca, o baton vermelho da Clementina, o olhar de Torga, e um aperto doce no peito como quem abraça uma cidade inteira que nunca, nunca mais larga.

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