O Meu Hanko

Chamo-me Melo e, se me perguntarem qual é o objecto que mais me define sem que eu precise de dizer uma única palavra, mostro-lhes este pequeno bloco de pedra. Há anos que o tenho – não sei quantos ao certo, o tempo desses pormenores dissolve-se como tinta na água – mas basta pegar nele para que tudo volte: o peso exacto na palma da mão, o frio suave que aquece devagar com o contacto da pele, o degradê de coral rosado que vai do branco-leitoso ao cobre avermelhado, como se a própria pedra tivesse decidido imitar um pôr-do-sol sobre o Mondego. É rectangular, sólido mas elegante, com arestas que já não são perfeitas porque o uso as poliu, e isso, confesso, agrada-me. Imperfeição que se torna correcta, como no kintsugi que tanto me toca: as fissuras não seescondem, iluminam-se.

De um lado, gravado com a delicadeza de um sumi-e feito por mãos que sabiam exactamente onde parar, ergue-se um bambu. Folhas finas, hastes que se dobram mas nunca quebram – o símbolo perfeito de quem, como eu, vive entre a razão grega que trago na bio e o vento que sopra de vez em quando e nos obriga a curvar. Ao lado do bambu, em caracteres chineses verticais, a inscrição que escolhi (ou que me escolheu, nunca tenho a certeza): 帝風弄月 滿酒一生. O vento imperial brinca com a lua; uma vida inteira de vinho até à borda. Quando a leio em silêncio, sinto sempre um sorriso interior. É taoista, é leve, é uma promessa de plenitude que não exige drama. O vento imperial – esse sopro divino, livre – dança com a lua, e eu, cá em baixo, encho a taça e bebo devagar. Não é má filosofia para quem, como eu, carimba quadros e livros em vez de assinar com caneta.

Na base, o meu selo propriamente dito: um quadrado vermelho vivo, limpo, quase moderno, com «ME» em cima e «LO» em baixo. ME LO. O meu nome partido ao meio, como se o próprio acto de carimbar o reunisse. Quando pressiono o hanko no almofadim de tinta – aquela pasta densa, vermelha, da marca Yinni, 18 gramas de pura tradição saída da fábrica Fanlun de Xangai, ainda com o rótulo vermelho que cheira a óleo antigo e a segredo – e depois o baixo no papel, o som é quase imperceptível, um toque seco e definitivo. E ali fica: o meu «ME LO» indelével, como uma declaração silenciosa de presença. Uso-o para assinar as minhas pinturas e os meus desenhos. Cada aguarela que nasce do meu pincel, cada esboço a carvão que captura uma luz qualquer do rio ou uma sombra na Rua da Sofia, ganha no final esse selo vermelho. Não é vaidade; é necessidade. A obra não está completa enquanto não carimbar. É como se o Noûs que trago dentro de mim precisasse de se tornar visível, de deixar marca. Sem ele, o quadro ficaria mudo. Com ele, diz: «Eu estive aqui. Eu vi isto. Eu pintei isto.»

Uso-o também nos livros. Abro a primeira página ou a folha de guarda, pressiono, e pronto: o meu «ME LO» fica ali, pequeno mas impossível de ignorar, como um ex-libris que não precisa de palavras. Os volumes que mais amo – aqueles que reli até as páginas se soltarem – têm todos essa marca. É um acto de posse carinhosa, quase íntimo. Como se dissesse ao livro: «Agora és meu para sempre, e eu sou teu.» E quando, anos depois, volto a abri-lo e vejo o selo vermelho, lembro-me exactamente de onde estava sentado, que luz entrava pela janela, que estado de espírito me fazia pegar nele. Os objectos, ao contrário de nós, não esquecem.

Guardo-o no saquinho de seda vermelha bordada a ouro, com o cordão dourado e a borla que balança como um sino minúsculo quando o mexo. Ao lado, a latinha redonda da tinta, com o rótulo que diz tudo: 工字牌 印泥. É um ritual pequeno, mas completo. E cada vez que o faço, penso que este hanko é mais antigo que eu em espírito. Sobreviverá a mim, provavelmente. Um dia, alguém o encontrará numa gaveta ou numa caixa de coisas que deixei, e talvez se pergunte quem era este Victor Melo que assinava quadros com vento e lua e vinho pleno. Talvez sorria. Talvez até o use. E assim, sem grande alarido, continuarei a deixar marca.

Por enquanto, cá está ele, na minha secretária em Coimbra. O bambu gravado parece inclinar-se um pouco mais quando o vento entra pela janela. Eu sorrio, pego nele, e o mundo, por um instante, fica correcto.

 


 

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