O Carnaval, essa coisa

Eu, que sou um homem de poucas alegrias e muitas desconfianças, olho para o Carnaval como quem olha para um parente rico que chega de surpresa, com malas cheias de barulho e contas por pagar. Não me diz nada. Nada mesmo. E até me aborrece, confesso, com aquela sinceridade que os outros chamam de mau-feitio.

Dizem que é a festa da liberdade, da inversão, do "deixa sair o que está preso". Pois sim. Liberdade de quê? De ser obrigado a fingir que se é feliz durante quatro dias, de usar uma máscara que não engana ninguém, de dançar ao som de uma música que parece sempre a mesma desde que me conheço? Eu prefiro a minha prisão quotidiana, pelo menos é honesta: acordo, trabalho, como o pão que o diabo amassou, e vou dormir com a consciência de que não traí ninguém, nem a mim próprio.

O Carnaval aborrece-me porque é uma alegria fabricada em série, como aqueles fatos de plástico que se compram no chinês e se rasgam ao primeiro salto. Toda a gente se disfarça de qualquer coisa – palhaço, pirata, diabo, fada – mas no fundo continua a ser o mesmo empregado de escritório, a mesma dona de casa, o mesmo político que amanhã volta a mentir com cara séria. A máscara não liberta, limita. Esconde o que já está escondido o ano inteiro.

E o barulho, meu Deus, o barulho. Tambores, serpentinas, gritos, cerveja a rodos, corpos suados a esfregarem-se uns nos outros como se o mundo acabasse na quarta-feira de cinzas. Eu oiço aquilo tudo e penso: "Então é isto a felicidade colectiva? Parece mais um ensaio geral para o inferno, com entrada gratuita."

Não, não é inveja. Eu até gosto de festa, mas de uma festa verdadeira: um jantar com amigos onde se fala mal do governo, se bebe um copo a mais e se ri de coisas que só nós entendemos. Sem fatos, sem plumas, sem obrigação de ser extrovertido. O Carnaval obriga. Obriga a ser alegre, obriga a participar, obriga a fingir que se está vivo. E eu, que já me esforço tanto para fingir durante o resto do ano, recuso-me a fingir também na folia.

Talvez seja defeito meu, dizem os carnavalescos. Talvez. Mas prefiro o meu defeito à vossa perfeição de papel crepom. Quando a Quarta-feira de Cinzas chegar, e as ruas ficarem cheias de serpentina pisada e cabeças doridas, eu estarei em casa, quieto, com um livro ou um silêncio que é só meu. E sentirei, pela primeira vez em dias, uma pontinha de alegria verdadeira: a de quem não se vendeu ao disfarce.

Adeus, Carnaval. Volta para o ano, se quiseres. Eu cá estarei, fiel à minha cara de sempre.

 




 


 

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