A República, ou como Platão me baralhou a cabeça (e ainda bem)
Eu cá gosto do Platão. Gosto dele como quem gosta de um tio excêntrico que chega à festa de família com ideias malucas e nos obriga a pensar. “A República” não é um livro para ler deitado na praia, parece-me. É um diálogo – dez livros cheios de Sócrates a meter o bedelho em tudo, desde a justiça até ao céu das Formas. Imagina: queres saber o que é uma cidade perfeita? Platão pega no assunto e desenha-te uma utopia com filósofos-reis no comando, guardiões musculados e produtores a ralhar menos. Hierarquia pura, sem democracias de trazer por casa, onde o povo vota em palhaços.
Mas olha, eu leio isto e penso: «Ó Platão, tu querias era acabar com as discussões de café». A caverna, com os prisioneiros acorrentados às sombras, é genial. Saímos lá para fora, vemos o sol verdadeiro, e voltamos para trás a levar com pedras. É como eu, que às vezes fecho os olhos aos jornais e sonho com o Bem em maiúsculas. Só que depois acordo com as notícias e penso: «Ainda bem que não mandam os filósofos. Eram capazes de nos pôr todos a contemplar triângulos em vez de futebol».
E o Anel de Giges? Um pastor encontra um anel que torna invisível e pimba: vira tirano. Platão pergunta: sem ninguém a ver, serias justo? Eu cá acho que sim, mas só porque tenho medo do remorso. Ou então não. É isso que me prende: “A República” não dá respostas prontas. Baralha-nos sobre as coisas boas da vida. Critica a democracia – «governo dos maus» – e eu, que vivo numa, concordo a medo. Mas depois penso nos reis-filósofos: e se fossem como aqueles professores que nos chumbavam por gostar de poesia em vez de lógica?
Vale a pena. Lê-o devagar, como quem prova um queijo da Serra. Começa pelo Livro II, entra no mito do luxo e ri-te com Gláucon a provocar Sócrates. Depois, diz-me o que achaste daquelas Formas eternas – eu cá fico com a suspeita de que Platão inventou a metafísica para nos consolar do caos. Ou para o agravar. De qualquer modo, é um livro que fica, como um bom vinho tinto na memória.
Comentários
Enviar um comentário