Alexandre O'Neill
Aqui estão, pousados na mesa como dois velhos companheiros que se reencontraram depois de anos de separação: de um lado, o volume negro e branco das Poesias Completas & Dispersos, com O'Neill deitado, dormitando, camisa aos quadrados, como quem diz “a vida é isto e não há remédio”; do outro, a capa vermelha e quente de Uma Biografia Literária, onde o mesmo aparece mais composto, quase sério, como se posasse para a posteridade que ele próprio desdenharia.
Ambos da Assírio & Alvim, ambos tocados pela mão cuidadosa de Maria Antónia Oliveira — ela que organizou a poesia, escreveu o posfácio, revisou tudo com Luis Manuel Gaspar, e depois, anos mais tarde, para o centenário de 2024, voltou à carga com a biografia revista e aumentada. É obra de paciência e de amor discreto, esse que não se anuncia aos gritos.
Oliveira não inventa, não dramatiza em excesso; limita-se a abrir portas, a deixar que os amigos falem, que as cartas se leiam, que Lisboa dos anos 50 e 60 reapareça nos cafés, nas tertúlias, nas noites de copos e de versos.
Ler estes dois livros juntos é como ter o poeta inteiro à nossa frente, sem máscaras excessivas. Nas Poesias Completas encontramos o O'Neill que conhecemos de cor: o da ironia que corta como navalha de barba, o da saudade que não se lamenta, o do Portugal miudinho e provinciano que ele flagelava com ternura. “Portugal”, esse poema que é um murro no estômago disfarçado de sorriso. Ou os versos de amor que parecem escritos por alguém que já perdeu tudo e ainda assim insiste em oferecer o que resta. E há os dispersos, esses achados que a edição anterior não tinha, pequenos diamantes que andavam perdidos em revistas e jornais — prova de que a obra de O'Neill, mesmo quando parece fechada, continua a crescer como musgo nas pedras.
A biografia, por sua vez, não é um romance nem um ajuste de contas. É um mapa. Segue o rapaz de família irlandesa-portuguesa, o
surrealista que se zangou com os surrealistas, o publicitário brilhante que
inventou slogans que ainda hoje repetimos sem saber de quem são, o homem de
várias mulheres e de uma só inquietação permanente. Oliveira deixa que os
testemunhos falem — Cesariny, Natália, Luiz Pacheco, os que ficaram e os que
partiram — e o retrato que sai é o de alguém que viveu intensamente, que sofreu
de depressão, que bebeu demais, que escreveu pouco mas escreveu bem demais. Não há santificação nem demolição; há apenas a vida, com as suas contradições, que é o que a boa biografia deve fazer: devolver-nos o homem por detrás do mito, sem esconder o mito.
Há qualquer coisa de melancólico nisto de reler O'Neill em edições tão cuidadas, tão definitivas. Como se dissessem: acabou-se, está tudo aqui, podem fechar o processo. Mas a poesia não se fecha. Esses versos continuam a circular, a picar, a fazer rir com amargura. E a biografia, ao mostrar-nos o homem vulnerável, só reforça o milagre: como é que alguém tão ferido conseguiu escrever com tanta leveza?
Olho outra vez para a fotografia. Dois livros. Um poeta. E penso que, no fundo, O'Neill teria gostado da ironia: ele, que detestava poses solenes, reduzido a estes dois volumes elegantes, pousados numa mesa de Coimbra, à espera que alguém os abra e deixe que a voz dele, essa voz inconfundível, volte a falar.
Porque, como ele próprio escreveu, “as palavras não morrem / morrem os homens”.

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