Hot Rats, ou o cheiro a 16 anos que não passa

 

Há discos que entram na vida da gente como um vizinho mais velho que fuma cigarros de enrolar e sabe coisas que nós ainda não sabemos nomear. Foi assim que “Hot Rats” me chegou, apresentado por um guitarrista do Contrato Social — nome de banda que, visto de hoje, parece saído de um manual de sociologia da revolução de cravos que ainda não tinha acontecido. Ele também era da velha  Alta de Coimbra, morava perto do Museu Machado de Castro, eu no Beco da Carqueja; ele já tinha barba rala e uma Fender; eu tinha acne, calças à boca de sino compradas na feira e a certeza absoluta de que o mundo estava prestes a ser explicado por uma guitarra, um saxofone e uma bateria.

 

Comprei o disco (não me lembro da edição, mas era certamente uma das baratas da Reprise que chegavam atrasadas e com cheiro a plástico quente) e levei-o para a sala da casa velha, onde o gira-discos Sanyo — adquirido a  prestações no Eléctrico — era o altar maior. Pus a agulha em “Peaches en Regalia” e, aos 16 anos, senti pela primeira vez que a música podia ser simultaneamente engraçada, sofisticada e ligeiramente perigosa. Não havia letras para decifrar (excepto a de “Willie the Pimp”, com o Beefheart a rosnar como um cão que aprendeu a falar); havia apenas aquela clareza cruel de quem sabe exactamente onde quer ir e decide levar-nos à força.

 

“Hot Rats” é, em rigor, um disco de jazz-rock instrumental — ou, melhor dizendo, de rock que se recusa a ser só rock e de jazz que se ri do jazz sério. Zappa dispensou quase toda a gente da Mothers (sobraram Ian Underwood no multi-instrumentalismo quase obsceno e o baixo de Max Bennett em alguns temas), contratou os violinistas Don "Sugarcane" Harris e Jean-Luc Ponty, meteu o Captain Beefheart a cantar como se estivesse a ameaçar o ouvinte com uma navalha de barbear, e ainda arranjou tempo para gravar tudo em quatro pistas analógicas com um som que, meio século depois, continua a soar futuro. “Peaches” abre como uma fanfarra de circo erudito; “Willie the Pimp” é o blues mais sujo que nunca foi limpo; “The Gumbo Variations” estica-se como um elástico de 16 minutos em que ninguém se magoa; “It Must Be a Camel” faz lembrar Thelonious Monk a passear num jardim japonês; “Little Umbrellas” é pura delicadeza; e “Son of Mr. Green Genes” é o que acontece quando um tema de “Hot Rats” decide ter filhos com um cartoon da Warner Bros.

 

Ouvi-o sozinho, vezes sem conta, porque aos 16 anos a solidão é o único sítio onde se consegue ouvir mesmo. O disco acompanhou-me pelas mudanças de casa, pelos empregos precários, pelas noites em que o futuro parecia uma piada de mau gosto. E continua cá. Não é nostalgia; é cumplicidade.

 

Anos mais tarde, já com dinheiro para edições decentes, comprei o vinil hot pink de 180g (ZR 3841, gatefold, remasterizado, repressão europeia de 2019) — objecto belo, quase indecente de tão cor-de-rosa — e a caixa “The Hot Rats Sessions” (4 CDs, ZR20032), que transforma o álbum num romance de formação: demos, takes alternativos, mono, stereo, conversas de estúdio, erros felizes. É como encontrar o diário de alguém que já conhecíamos de cor e descobrir que ele também tinha dúvidas, risos, cigarros e birras.

 

Mas o essencial continua a ser o mesmo: aquele primeiro acorde de “Peaches”, o solo de Zappa em “Willie” que parece dizer “eu sei que estás a ouvir-me, não finjas que não”, o modo como o disco inteiro soa a liberdade disciplinada — a única liberdade que vale a pena.

 

Hoje, aos 60, ponho-o outra vez. O gira-discos já não é Sanyo, mas o cheiro a agulha no vinil ainda é o mesmo. E o disco ainda me leva de volta ao Beco da Carqueja, ao miúdo de 16 anos que pensava que a vida ia ser complicada mas interessante. Afinal, não se enganou assim tanto.


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