JÚRI 


a carta chegou do vaticano

não era de deus  

era do júri  

 

dizia que eu tinha sido  

observado  

desde os sete anos  

 

no confessionário  

no recreio  

quando roubava figos  

ao vizinho surdo  

 

eles sabiam de tudo  

 

o júri gosta muito  

de dossiers  

de fotografias  

de pecados a cores  

 

metem o meu nome  

ao lado de palavras difíceis  

“heterodoxia”  

“recusa em obedecer”  

“excesso de ternura por gatos”  

 

um senhor de fato cinzento  

anota:  

“ri-se na missa”  

 

outra senhora acrescenta:  

“lê romances  

quando devia ler relatórios”  

 

no fim perguntam  

se tenho algo a declarar  

 

respondo que sim  

que uma vez  

dei a mão a uma velha  

para atravessar a rua  

e não pedi recibo  

 

que outra vez  

não denunciei  

um pássaro  

que cantava fora de horas  

 

o júri fica confuso  

 

as leis não preveem  

a ternura  

nem o canto dos pássaros  

 

mandam-me embora  

com uma etiqueta:  

“caso arquivado  

por falta de tipificação”  

 

chego a casa  

abro a janela  

vejo o céu com cara de arquivo morto  

 

acendo o fogão  

faço sopa de legumes  

e penso  

que deus  

se existir  

deve gostar mais de sopa  

do que de júris

 

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