Porque Não Sou Cristão (à Porta da Sé Velha)
Sento-me aqui nos degraus gastos da Sé,
com o Russell aberto no colo como quem lê o jornal desportivo,
e o sino das cinco e meia começa o seu sermão de bronze.
As velhas de mantilha sobem devagar,
passam por mim como se eu fosse um cão vadio
ou um estudante que falhou o exame de Religião.
— Menino, não entra? — pergunta uma, com voz de missa antiga.
Eu mostro-lhe a capa do livro, sorrio com o canto da boca:
— Já entrei, tia. Entrei e saí.
Agora fico cá fora a ver se o Senhor me convence
com estes sinos que tocam sempre à mesma hora
e nunca mudam de opinião.
O Russell diz coisas feias:
que Cristo era um moralista excêntrico,
que o inferno é uma invenção de chantagem,
que Deus é um pai tirano que não merece respeito.
Eu leio baixinho, para não escandalizar os pardais
que vêm pedir migalhas às beatas.
Lá dentro, o padre eleva a hóstia,
e eu cá fora elevo o cigarro:
dois gestos quase iguais,
um para a salvação, outro para o enjoo do dia.
O fumo sobe, mistura-se com o incenso que escapa pela porta,
e eu penso: afinal, ambos vamos para o ar
e ninguém sabe ao certo onde acaba o cheiro.
Uma criança sai a correr da missa,
olha para o livro na minha mão,
pergunta com olhos de quem ainda acredita em tudo:
— Isso é um livro mau?
Eu rio-me, coitado do miúdo:
— Mau? Não, pequeno.
É um livro que diz a verdade nua
e por isso incomoda mais que o diabo.
Mas entra, vai rezar por mim.
Eu fico aqui a guardar o lugar
para quando o Senhor se cansar de tanto milagre
e vier sentar-se ao meu lado
a ler o Russell comigo.
O sino cala-se.
A missa acaba.
As velhas descem, algumas benzem-me ao passar
(com pena, com medo, com nojo?).
Eu fecho o livro, guardo-o no bolso do casaco
e começo a descer a Calçada,
com a Sé Velha às costas
e a alma (essa traidora) a murmurar baixinho:
— Então, ó coimbrão?
Sempre a fingir que não sentes o frio dos degraus?
E eu respondo-lhe, sem voltar a cabeça:
— Sinto, sim. Sinto tudo.
Mas prefiro o frio da razão
ao calor falso das velas.
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