O Acordo Desacordado (ou Como Matar uma Língua com Boa Educação)

 

Caros compatriotas da palavra escrita, sentem-se aqui neste banco de jardim que já viu melhores dias, com vista para o Mondego que corre indiferente, e deixem-me cuspir esta bílis ortográfica que me anda entalada na garganta desde que inventaram esta coisa chamada Acordo Ortográfico de 1990. Acordo Ortográfico, dizem eles, com ar de quem resolveu o problema da fome no mundo. Acordo? Qual acordo? Acordo entre quem? Entre Portugal, que tem uma língua com séculos de teimosia, e o Brasil, que tem milhões de falantes e acha que a língua é deles porque são mais? Acordo para quê? Para cortar consoantes mudas como quem corta unhas, para suprimir acentos como quem suprime direitos, para transformar "acção" em "ação", "recepção" em "receção", "correcto" em "correto", "óptimo" em "ótimo", e deixar a língua mais leve, mais pobre, mais parecida com uma tanga brasileira em vez do fato completo que sempre foi.

Eu, que sempre escrevi "acção" com dois cês, como quem dá força à palavra, "directo" com o cê que não se ouve mas se sente, "facto" como verdade sólida e não como roupa de carnaval, recuso-me. Não uso, não uso e ponto final. Porque não faz sentido, caramba. A língua não é um electrodoméstico para uniformizar como torradeiras numa fábrica. É identidade, é história, é o som que os avós faziam quando liam Camões e Pessoa em voz alta, com as consoantes mudas a ecoar como fantasmas teimosos. Agora vêm estes senhores de fato e gravata, com reuniões em Lisboa e no Rio, e decidem: corta aqui, suprime ali, para facilitar a vida. Facilitar o quê? A vida de quem? Dos editores que querem vender mais livros no Brasil? Dos burocratas que querem relatórios uniformes? Dos professores que já não sabem o que ensinar às crianças?

 

Unir a lusofonia, dizem com voz solene. Unir como? Entregando a ortografia ao Brasil porque são mais e pagam melhor? E nós cá, os portugueses, aceitamos, com aquela educação de quem diz "faça favor" enquanto leva com um murro. Aceitamos "fato" em vez de "facto", porque no Brasil "fato" é roupa e aqui era verdade — confusão garantida, para rir ou chorar. Aceitamos "receção" sem o p mudo, mais leve, mais vazio, como recepção de hotel de uma estrela. Aceitamos "ótimo" sem o p, como se o óptimo perdesse brilho sem essa consoante a segurar-lhe o peso.

 

E quem cumpre isto? O Brasil, todo contente, porque já escrevia assim e agora manda. Os funcionários públicos cá, porque o Diário da República obriga. As escolas, porque as crianças têm de aprender o que os pais rejeitam. Os jornais? Alguns sim, outros não, outros a meio, como quem cumpre mas com a mão atrás das costas. E os escritores? Muitos não, graças a Deus. Eu não. Escrevo como sempre escrevi, com as consoantes mudas que não se ouvem mas se vêem, com os acentos que marcam o ritmo da frase como quem marca o passo de uma marcha fúnebre. Porque a língua é minha, é nossa, é de Portugal, com as suas teimosias, as suas belezas antigas que não se vendem por acordo nenhum.

 

Acordo? Acordo seria deixar cada um escrever como lhe apetece, sem policia da ortografia a multar um "c" a mais ou um "p" teimoso. Acordo seria respeitar a diferença, não uniformizar como quem uniformiza soldados num desfile. Mas não — querem unidade, essa palavra bonita que esconde imposição, que corta o que sobra para caber no molde alheio.

 

E a gente ri, com aquele riso amargo de quem vê o país a perder pedaços de si mesmo por decreto. Ri e continua a escrever "correcto", "directo", "óptimo", porque óptimo é resistir. Óptimo é não ceder a esta moda passageira que um dia passará, como passaram outras. A língua sobrevive, teimosa, como nós.

 

Saúde, meus caros. À ortografia que não se deixa acordar à força. E ao desacordo que nos mantém vivos.



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