O "comboio" de depressões
Chega o comboio, cá vem ele outra vez,
com os nomes todos chiques, estrangeirados,
Ingrid primeiro, a alemã furiosa,
depois Joseph, o inglês educado mas traiçoeiro,
Kristin a gritar ventos de fúria nórdica,
Leonardo a pintar cheias como mestre renascentista,
e agora Marta, a última da lista,
a bater à porta com chuva que não pára,
como vizinha chata que se instala e fica.
Os convidados indesejados, ah pois,
vêm da Europa Ocidental, bem vestidos de nuvens,
trazem bagagem pesada: ventos a 200,
rios que transbordam como lágrimas baratas,
casas sem luz, sem água, sem telefone,
povoações isoladas como ilhas de miséria,
gente desalojada a olhar o céu cinzento
e a perguntar: "Quando é que isto acaba, caramba?"
O país de rastos, claro,
como sempre, de joelhos no lamaçal,
a Protecção Civil a correr em círculos,
o governo a declarar calamidade pública
como quem declara amor eterno e mente,
e nós cá, os portugueses de sempre,
a limpar a merda, a reconstruir devagar,
com aquela resiliência que parece masoquismo.
Depressões, depressões,
não as da cabeça, essas vêm depois,
quando a conta chega e a casa afunda,
quando o rio leva o carro e a esperança,
quando Marta se ri da nossa cara molhada
e parte para o próximo país,
deixando-nos o bilhete: "Volto em breve".
E a gente aplaude, tímida,
como quem aplaude o fado que nos mata devagar,
porque o comboio não pára,
traz sempre mais nomes bonitos,
mais convidados que ninguém convidou,
e nós, coitados, abrimos a porta
e dizemos "entrem, façam favor",
porque somos assim, educados até ao osso.

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